LIESA X Prefeitura: Cavaliere e Gabriel David travam 'guerra de versões' sobre o modelo de 15 escolas no Grupo Especial.
O mundo do samba assiste a uma intensa disputa política nos bastidores do Carnaval Carioca. O centro da discórdia é a proposta de ampliação do Grupo Especial de 12 para 15 agremiações. A discussão, que subiu de tom nos últimos dias, coloca em xeque não apenas a organização dos desfiles, mas a própria autonomia da LIESA frente ao poder público.
A Visão da Prefeitura: Ocupação da Cidade do Samba e Expansão.
A ideia de expandir a elite do samba para 15 escolas foi originalmente proposta por Eduardo Paes e agora é defendida com vigor por seu sucessor, Eduardo Cavaliere. A estratégia do governo municipal é fixar o desfile em três dias, com cinco escolas por noite. Para o prefeito, a viabilidade técnica passa pela otimização da Cidade do Samba.
Cavaliere afirmou publicamente que a decisão está tomada e que o esforço necessário será feito para 2027. Ao comentar as dificuldades estruturais apontadas pela Liga, o prefeito sugeriu uma solução direta: o uso de dois barracões que atualmente servem como depósitos no complexo.
"Já há dois barracões disponíveis na Cidade do Samba onde as escolas guardam materiais. Podemos achar outro lugar para guardá-las", afirmou Cavaliere.
O Contra-argumento da LIESA: Espaço e Logística.
A resposta de Gabriel David e da diretoria da LIESA tem sido pautada pelo pragmatismo estrutural. Segundo a entidade, a conta não fecha tão facilmente. Embora o terreno da Cidade do Samba possua 92 mil metros quadrados, a Liga argumenta que não há espaço para a construção de novos barracões sem sacrificar áreas vitais do complexo.
A LIESA pontua que a ocupação dos dois barracões citados por Cavaliere e a eventual necessidade de um terceiro espaço comprometeriam as áreas de circulação, o estacionamento e, crucialmente, os locais destinados a shows e eventos, que geram receita para o complexo durante o ano.
Além da questão dos barracões, a Liga impõe condicionantes rigorosas para aceitar o modelo de cinco escolas por noite:
Infraestrutura: Realização de obras na Cidade do Samba e no Sambódromo para adequação às novas normas do Corpo de Bombeiros.
Financeiro: Garantia de subvenção para todas as 15 agremiações com previsibilidade de pagamento.
Logística: Viabilização de barracões individuais para todas as escolas, sem o improviso de depósitos coletivos.
Critérios de Escolha: Tradição versus Classificação.
Outro ponto de fricção na "guerra de versões" é o critério para definir quais escolas subiriam para o Grupo Especial. Eduardo Paes, ao apresentar a proposta, defendeu a ascensão de agremiações tradicionais que hoje estão na Série Ouro, citando especificamente Império Serrano, Estácio de Sá e União da Ilha do Governador.
Contudo, Gabriel David discorda da escolha por "convite" ou tradição. Para o presidente da LIESA, a meritocracia do acesso deve prevalecer. Em entrevista ao canal Mais Carnaval, David defendeu que, caso a ampliação ocorra, as vagas devem seguir a classificação de 2026. Nesse cenário, além da campeã União de Maricá, subiriam o Império Serrano (vice), a Unidos de Padre Miguel (terceira) e a União da Ilha (quarta).
Demonstração de Força e Impasse no Palácio da Cidade.
"Pleitos sempre devem ser bem-vindos por parte das escolas, mas quem decide é o prefeito. Sempre!", escreveu Paes. Essa postura impositiva encontrou resistência imediata. Na última segunda-feira, uma reunião plenária na sede da LIESA terminou sem consenso, evidenciando que a liga não aceitará a mudança sem que suas exigências técnicas e financeiras sejam atendidas.
O Calendário de 2027 em Aberto.
Apesar do impasse, o cronograma oficial do Carnaval segue avançando. O sorteio da ordem dos desfiles para 2027 está marcado para o dia 16 de abril, na Cidade do Samba. Até o momento, a LIESA trabalha com as trincas pré-definidas para o modelo de 12 escolas:
Beija-Flor / Salgueiro / Mangueira
Viradouro / Vila Isabel / Imperatriz
Unidos da Tijuca / Grande Rio / Tuiuti
Neste formato atual, União de Maricá, Mocidade e Portela seriam as responsáveis por abrir cada uma das três noites de desfile. Entretanto, se a pressão da Prefeitura surtir efeito e o número de escolas subir para 15, todo esse formato de sorteio e a organização das trincas precisarão ser integralmente alterados.
A "guerra de versões" entre Cavaliere e Gabriel David permanece sem um desfecho, enquanto o mundo do samba aguarda para saber se o Carnaval de 2027 será o da expansão política ou o da manutenção técnica.
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Thiago Otero Jornalista | Cultura, Carnaval e Entretenimento.
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