Crônica: Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

 

A frase do ditado popular brasileiro resume bem o que o mundo do samba assistiu na tarde da última quinta-feira, na Cidade do Samba. A foto acima, feita pela equipe do site CARNAVALESCO, é o registro perfeito e, talvez, a melhor personificação do dito.

Enquanto Eduardo Cavaliere responde atônito aos questionamentos da imprensa, ávida pela confirmação de que o Grupo Especial seria composto por 15 agremiações no próximo ano, Gabriel David o olha com seu sorriso de canto de boca e seu "olhar 43", digno de vilão de Malhação ou de qualquer outra série teen. Mas aqui não se trata de vilania ou bondade, e sim de defesa de interesses próprios.

O olhar esgueiro e marcante do jovem presidente da Liesa confirma o que os sambistas já sabiam, mas não queriam realizar: nunca existiu a menor vontade, por parte dos presidentes das escolas de samba do Grupo Especial, de ampliar a elite do Carnaval carioca.

Ao ver Cavaliere sair da Cidade do Samba com um olhar cabisbaixo, de quem sabe que perdeu uma batalha que envolve política, imagem e possíveis resultados nas urnas neste e nos próximos anos, percebe-se o peso da derrota. É o olhar de quem sabe que teve sua imagem manchada quando, no último sábado, esteve presente com o presidente do Império Serrano e bradou que o Reizinho de Madureira estaria no Grupo Especial em 2027, de qualquer jeito.

Cavaliere caiu. Caiu ao perceber que não existia interesse da Liesa em ouvir o que ele tinha a dizer. Foi possível ver que a resposta dada pelos dirigentes das escolas, em relação à proposta de Paes e Cavaliere, já estava pronta há pelo menos dois dias. Em seu canal no YouTube, Aílton Jorge Guimarães, o Capitão Guimarães — ex-presidente da Liesa e patrono da Vila Isabel — deixou clara toda a sua ojeriza à ideia de receber mais três coirmãs na elite do Carnaval carioca, chegando a classificar a ideia defendida por Paes como "retrocesso".

Já Marcelinho Calil, presidente da atual campeã do Carnaval carioca, Unidos do Viradouro, declarou em um podcast que "fazia gosto" pela ideia de 15 escolas no Especial, mas que não enxergava necessidade de que tudo fosse feito de maneira corrida e apressada, defendendo que seria necessária uma isonomia para viabilizar a expansão.


Nos últimos dias, enquanto a "novela mexicana" das 15 escolas tomava conta das redes sociais e dos bastidores do samba, uma discussão foi levantada sobre a soberania da decisão dos desfiles. A ideia de ampliar o Especial existe há muitos anos e chegou a ficar próxima de ser realizada em 2024, quando optaram por dividir o espetáculo em três noites. Mas, de lá para cá, todas as vezes que o assunto era citado, a Liesa arranjava um jeito de colocar panos quentes e abafar a história.

A mais recente foi quando Eduardo Paes anunciou no Twitter que, antes de sair da prefeitura, sugeriu ao sucessor, Cavaliere, que viabilizasse as 15 escolas no Especial já para 2027. Ao saber que os integrantes da velha cúpula do Carnaval logo repudiaram a ideia, como sempre fizeram, Eduardo Paes escreveu uma nova postagem reiterando que o domínio do Carnaval pertence à prefeitura — mas a coragem do portelense não foi muito longe: ele apagou a publicação minutos depois.

No mesmo vídeo em que Guimarães chamou a ideia de Paes de retrocesso, ele deixou bem claro que a Liga Independente das Escolas de Samba não é subordinada ao prefeito e que o mesmo não manda nas decisões de uma entidade independente. Por incrível que pareça, o patrono não mentiu.
Em 1994, um acordo entre a Prefeitura do Rio e a Liesa concedeu à Liga o controle total de tudo o que diz respeito aos desfiles das escolas de samba, consolidando a "soberania" do cartel de sambistas.

Mais de 40 anos depois, Paes e Cavaliere não contavam que a mesma Liga que havia tido a autonomia concedida pela prefeitura iria lhes dar uma rasteira que compromete, e muito, suas imagens para as próximas eleições. Capitão Guimarães não poupou falas ao prefeito Cavaliere ao longo da reunião de quinta-feira. O olhar cabisbaixo do prefeito não era à toa: havia acabado de ouvir, cara a cara com o capo, que o sonho das 15 escolas ficaria para daqui a quatro anos, quando, muito provavelmente, ele já terá deixado a prefeitura.


O sorriso malicioso, satírico e quase indecente de Gabriel David também não é à toa. É o sorriso de quem atendeu ao pedido de quem lhe ensinou tudo sobre o que é ser um chefe: Anísio e Guimarães, pai e "tio" de Gabriel, ambos ex-presidentes da Liesa. O sorriso de Gabriel é o sorriso de quem deu orgulho aos seus antecessores.

E assim o Carnaval segue, sem que a Liesa tenha a menor vontade de trazer de volta suas filhas que outrora eram queridas e hoje nada mais são do que enjeitadas e indesejáveis dentro da casa. Cavaliere saiu da reunião como quem sai de um "acordo de cavalheiros" onde não aconteceu acordo nenhum; o que houve, na verdade, foi uma ordem e um "sim, senhor". Afinal, nesse paraíso-purgatório da beleza e do caos que é o Rio de Janeiro, manda quem pode, obedece quem tem juízo. Cavaliere mostrou ter juízo. Quem manda já está evidente há muito tempo.


Thiago Otero. 

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✍️ Thiago Otero Jornalista | Cultura, Carnaval e Entretenimento.

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