Mangueira convida bombeiros para festa em quadra interditada pela própria corporação há dois anos.

A quadra da Estação Primeira de Mangueira permanece operando regularmente apesar de estar interditada pelo Corpo de Bombeiros desde janeiro de 2024. A corporação aponta "perigo sério e iminente" no local, enquanto o Ministério Público do Rio de Janeiro investiga o descumprimento de normas de segurança e cobra providências das autoridades municipais e estaduais.

A situação administrativa e de segurança da quadra da Estação Primeira de Mangueira apresenta um impasse entre a agremiação e os órgãos de fiscalização do Estado. De acordo com o Corpo de Bombeiros, o espaço está formalmente interditado por falta de segurança contra incêndio e pânico. O diagnóstico da corporação é severo: o local apresenta riscos diretos aos frequentadores, com rotas de fuga comprometidas e sinalização de emergência precária.

Mesmo com a proibição oficial, a agenda de eventos da escola de samba não foi interrompida. A unidade tem sediado atividades de grande porte, como a final da escolha do samba-enredo em setembro do ano passado e feijoadas que registraram lotação máxima em fevereiro deste ano. Comercializações de alto valor, como camarotes vendidos a R$ 1 mil em eliminatórias de samba, também foram registradas durante o período de interdição.

Conflito de Autoridade e Convite Institucional

Um episódio recente evidenciou o descompasso entre a gestão da escola e a autoridade dos bombeiros. No mês em que a Mangueira completa 98 anos, a presidente da agremiação, Guanayra Firmino, planejou uma alvorada festiva para o dia 28 de abril, às 20h, na própria quadra. A dirigente chegou a oficializar um convite ao comandante do grupamento dos bombeiros músicos para que a banda sinfônica da corporação participasse da celebração. O pedido foi negado pelos bombeiros, sob a justificativa de que a instituição não poderia participar de um evento em um local por ela própria interditado.

O Corpo de Bombeiros reforça que o único pedido de desinterdição protocolado pela escola foi indeferido no dia 5 de fevereiro de 2024. Segundo a corporação, não há registros de solicitações recentes para a realização de eventos específicos, o que coloca qualquer atividade realizada no espaço em desacordo com a legislação vigente e com as normas de segurança estaduais.

Investigação e Cobrança do Ministério Público

O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) mantém um inquérito aberto há dois anos para apurar as irregularidades na quadra. Recentemente, a promotoria intensificou a pressão sobre os órgãos públicos, cobrando explicações da Prefeitura do Rio e do próprio Corpo de Bombeiros sobre a continuidade das operações no local.

Em resposta aos questionamentos do MPRJ, o secretário de Ordem Pública (Seop), Marcus Belchior, informou que a escola foi notificada em 2026 para apresentar a documentação necessária, incluindo o alvará de funcionamento e o certificado de aprovação dos bombeiros. Por outro lado, a Mangueira alegou ao Ministério Público em janeiro que realiza apenas eventos de pequeno porte, com público estimado entre 500 e 1.000 pessoas, e que trabalha na regularização do espaço.

A próxima etapa jurídica está agendada para o dia 4 de junho, quando ocorrerá uma reunião entre representantes da escola, MPRJ, Seop e Corpo de Bombeiros. O objetivo do encontro é estabelecer o cumprimento rigoroso das medidas de segurança. Até a data da reunião, a escola mantém sua programação, que inclui um baile neste sábado (18) e um evento de samba no dia 1º de maio.

Íntegra da nota oficial da Estação Primeira de Mangueira:

NOTA OFICIAL

A Estação Primeira de Mangueira esclarece que sua quadra passa por um processo de adequação às normas de segurança por parte do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro, dentro de um processo regular e preventivo, comum aos espaços que recebem público.

A denúncia tenta tirar o foco do trabalho realizado pela atual gestão que vem sanando demandas que, há alguns anos, as outras gestões também tentaram resolver. A Agremiação informa ainda que todas as medidas necessárias já foram iniciadas e estão sendo conduzidas dentro do prazo estabelecido pelo órgão competente, com acompanhamento técnico e total comprometimento em atender integralmente às exigências legais.

A Mangueira destaca ainda o orgulho de ser a única escola do Grupo Especial que mantém sua quadra dentro da própria comunidade. Temos plena consciência dos desafios estruturais que essa realidade impõe, mas também da sua importância histórica, cultural e social. Permanecer na comunidade é um compromisso com nossas raízes, com o nosso povo e com a própria essência do Carnaval do Rio de Janeiro.

Seguiremos trabalhando com responsabilidade, transparência e respeito à nossa história para garantir que a nossa Casa continue sendo um espaço seguro, acolhedor e pulsante para todos.

ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA

Foto: Márcia Foletto/Agência O Globo

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✍️ Thiago Otero Jornalista | Cultura, Carnaval e Entretenimento.

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