A mãe preta do samba: Tia Ciata sobe o morro do Tuiuti no Carnaval 2027.

O Paraíso do Tuiuti prestará uma homenagem a Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, no Carnaval 2027. Com o título “Ciata, a Mãe Preta do Samba”, a azul e amarela de São Cristóvão pretende contar a história da mãe de santo que personifica o nascimento do samba carioca e representa a resistência da africanidade no Centro do Rio no início do século XX.

Nascida em Santo Amaro da Purificação, Hilária se mudou para o Rio de Janeiro aos 22 anos, tendo sido uma das responsáveis pela chegada do samba de roda à cidade. Foi morar na principal praça da área central do Rio, a Praça Onze. A região, conhecida como “Pequena África”, foi berço para uma comunidade baiana que fez da área um palco para diversas manifestações de culturas afro-brasileiras e também para casas de religiões de matriz africana; entre essas, a de Tia Ciata, um dos espaços fundamentais para o florescimento do samba carioca.

Trabalhou como quituteira e vendia tabuleiros repletos de cocadas, bolos e manjares; era assim que garantia o sustento de seus filhos junto com suas filhas e irmãs de santo. Sua casa na antiga Rua Visconde de Itaúna foi o principal epicentro de encontros nascedouros do samba. Eram frequentadores de sua casa Pixinguinha, Donga, Heitor dos Prazeres, Sinhô e João da Baiana.

Foi na casa de Ciata que se criou a ideia de “roda de samba”, eventos nos quais os indivíduos presentes dançavam ao som do samba corrido; quem não dançava, assistia e presenciava as célebres noites de festa. Tudo isso graças à parceria que Ciata tinha com as autoridades. Com o samba sendo considerado “vadiagem” pela polícia, o respeito e a reputação da sambista faziam com que os agentes permitissem as festas em seu terreiro.

Contam registros que Ciata teria providenciado o tratamento de uma ferida na perna do presidente Venceslau Brás, o qual, em agradecimento, atendeu ao seu pedido e conseguiu um emprego para o seu esposo: uma posição no gabinete do chefe da polícia.

Foi também sob os olhos de Ciata que o primeiro samba gravado no Brasil foi composto por Donga e Mauro de Almeida. Os versos foram criados na casa de Hilária, consagrando o ambiente como o berço do samba carioca, que completa 110 anos em 2026.

Ao escolher a baiana como enredo para o próximo ano, a Tuiuti segue fazendo jus ao nome de “Quilombo do Samba” que carrega. A escola já levou para a avenida grandes personalidades da negritude, como João Cândido, Xica Manicongo e, recentemente, o Ifá Lukumí. A escolha em homenagear Ciata é, incrivelmente, inédita na história do Carnaval. Nunca antes a mãe de santo teve um enredo inteiramente dela, tendo sido apenas citada em diversos outros momentos.

Ao meu ver, a decisão da Tuiuti é um completo acerto. Uma proposta que dialoga com a identidade da escola e triunfa ao trazer Ciata para o protagonismo merecido, que nunca antes teve em um desfile de escola de samba. Mais que merecida, a homenagem é necessária e pertinente quando se pensa que o primeiro samba gravado — em sua casa — completa 110 anos. Uma oportunidade excelente.

O enredo, apesar de não ter sido proposto pelo carnavalesco Renato Lage, mostra uma clara versatilidade do artista, que no último Carnaval homenageou a cantora Rita Lee na Mocidade. Agora, quase que em um giro de 180 graus, Lage aposta em uma temática africana e brasileira, totalmente diferente do estilo colorido e festivo de Rita. Renato é um bom exemplo de que um artista, independente do tempo de carreira e dos títulos que carrega no currículo, precisa ser múltiplo na busca incansável pelo sucesso; o fato de ser um decano — mago e ídolo da nova geração de artistas — não o impede de se lançar em uma ideia totalmente diferente do que vinha fazendo nos últimos anos. Artista do mais alto nível.

O samba será composto por Luiz Antonio Simas e Cláudio Russo, que também assinam o texto da sinopse. A expectativa é que a dupla emplaque mais uma obra-prima, na esteira do samba de 2026, um dos quatro melhores do último Carnaval.

A Tuiuti larga na frente na corrida por um bom resultado em 2027. Muitos pontos jogam a seu favor, entre eles quesitos de extrema importância defendidos por profissionais de alto gabarito. Renato, Simas e Russo certamente vão "deitar e rolar" e prestar uma homenagem mais que merecida à mãe preta do samba.

Thiago Otero.

------------------------------

Gostou? Compartilhe com seus amigos e com pessoas que também possam gostar!

📩 Sugestão de pautas e contato: thiagooterodefreitas@gmail.com

💸 Contribua via Pix:  thiagooterodefreitas@gmail.com

✍️ Thiago Otero Jornalista | Cultura, Carnaval e Entretenimento.

Tem alguma informação de bastidor, comentários, dúvidas ou críticas? Entre em contato. Informação de qualidade se faz com independência e apoio dos leitores.

Apoie o Jornalismo Independente!