Abdias do Nascimento pode ser enredo da União de Maricá para o Carnaval 2027.

Escola de samba fluminense projeta homenagem ao intelectual, político e ativista, considerado uma das principais lideranças da cultura afro-brasileira no século XX.

A União de Maricá estuda levar para a Marquês de Sapucaí, em sua estreia no Grupo Especial no Carnaval 2027, um enredo em homenagem ao ator, escritor e senador Abdias do Nascimento. A proposta de exaltação ao intelectual e ativista dos direitos civis e humanos das populações negras está em fase de planejamento interno. O desenvolvimento do tema ficará a cargo do carnavalesco Edson Pereira e do enredista Mauro Cordeiro, com anúncio oficial previsto para ocorrer ainda no mês de maio.

Nascido em março de 1914 em Franca (SP), Abdias do Nascimento era neto de africanos escravizados. De origem humilde, filho de um sapateiro e de uma doceira, trabalhou desde os sete anos. Graduou-se em economia pela Universidade do Rio de Janeiro em 1938, com posteriores pós-graduações no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), em 1957, e em Estudos do Mar, em 1961.

Sua trajetória na defesa dos direitos da população negra começou na década de 1930, quando se alistou no Exército e integrou a Frente Negra Brasileira, em São Paulo. Em 1938, organizou o Congresso Afro-Campineiro contra a discriminação racial. Por sua oposição ao regime do Estado Novo, sofreu prisões pelo Tribunal de Segurança Nacional e na Penitenciária do Carandiru. No cárcere, fundou o Teatro do Sentenciado e um jornal voltado aos detentos.

Em 1944, Abdias fundou o Teatro Experimental do Negro (TEN) no Rio de Janeiro. A entidade foi pioneira ao associar a luta por direitos civis à valorização da herança cultural africana, combatendo práticas excludentes na dramaturgia nacional e oferecendo alfabetização para trabalhadores. Sob sua liderança, o TEN capitaneou marcos como a Convenção Nacional do Negro (1945-1946) — que propôs à Constituinte a criminalização do racismo —, a Conferência Nacional do Negro (1949) e o 1º Congresso do Negro Brasileiro (1950).

Como articulador político e cultural, Abdias participou do Comitê Democrático Afro-Brasileiro e editou o jornal Quilombo. Alinhado ao movimento internacional da Negritude, denunciou o racismo no Brasil por meio da "Carta Aberta a Dacar", após ser excluído da comitiva oficial do país no 1º Festival Mundial das Artes Negras, no Senegal. Entre 1950 e 1968, idealizou e foi o curador fundador do Museu de Arte Negra.

Após o golpe militar de 1964, o ativista atuou na oposição pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Com a promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5) em 1968, foi forçado ao exílio de 13 anos, divididos entre os Estados Unidos e a Nigéria. No exterior, projetou a realidade afro-brasileira em debates globais, participando de congressos pan-africanos e de cultura negra na Jamaica, Tanzânia, Colômbia e Panamá.

Reconhecido internacionalmente como um dos mais completos intelectuais do mundo africano, Abdias do Nascimento atuou como docente na Escola de Artes Dramáticas da Universidade Yale, na Universidade Wesleyan e na Universidade Temple. Tornou-se Professor Emérito da Universidade do Estado de Nova York em Buffalo e lecionou na Universidade Obafemi Awolowo, na Nigéria. Recebeu títulos de Doutor Honoris Causa da UERJ, UFBA, UnB, UNEB e da própria instituição nigeriana Obafemi Awolowo.

Abdias do Nascimento faleceu no Rio de Janeiro em 23 de maio de 2011, aos 97 anos, em decorrência de complicações da diabetes. A potencial escolha de sua biografia pela União de Maricá marca o início dos preparativos da agremiação para consolidar sua posição na elite do carnaval carioca.

Foto: Acervo Ipeafro

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✍️ Thiago Otero Jornalista | Cultura, Carnaval e Entretenimento.

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