Miguel Falabella e a DuLoren: Como um anúncio de calcinha dos anos 2000 viralizou e virou nostalgia nas redes.

Publicidade estrelada por Miguel Falabella ganha nova circulação nas redes sociais, despertando debates sobre a evolução dos padrões de consumo, o vocabulário das plataformas digitais e o legado das campanhas de Roni Argalji.

A circulação de arquivos históricos nas redes sociais frequentemente resgata produções que desafiaram as normas de seu tempo. Recentemente, uma peça publicitária da marca de lingeries DuLoren, protagonizada pelo ator, diretor e dramaturgo Miguel Falabella no início da década de 2000, voltou a viralizar no X (antigo Twitter). Na imagem, o artista aparece nu, cobrindo a região íntima com uma calcinha da grife, acompanhado do slogan: “Se eu fosse mulher, só usava DuLoren”.

O estopim para a nova onda de engajamento partiu de uma publicação do criador de conteúdo Gabriel Miranda, que comparou o impacto da imagem à dinâmica dos mercados visuais contemporâneos. "Miguel Falabella no OnlyFans do seu tempo era um acontecimento, né?", destacou a postagem. Embora o comentário utilize o humor e o vocabulário das plataformas digitais monetizadas de hoje, a análise joga luz sobre como uma peça concebida para a lógica da mídia impressa tradicional adquire novos significados na era do compartilhamento digital.

De acordo com registros catalogados no banco de dados AdRespect, especializado em diversidade na publicidade, o anúncio “Duloren lingerie, Falabella” foi originalmente veiculado em 29 de março de 2000, nas páginas da revista semanal IstoÉ. A criação foi assinada pela agência Doctor. O resgate desse histórico não se restringe aos usuários comuns; a própria DuLoren organizou institucionalmente o seu passado em uma publicação oficial no Instagram. Na postagem, a marca homenageou o empresário Roni Argalji e sua equipe de marketing, afirmando que eles "fizeram história sem medo de cancelamento", ao pautar temas complexos como lesbianidade, religião, aborto, prazer feminino, etarismo e transição de gênero. A empresa reforçou a filosofia de Argalji, sintetizada na frase: “Somos uma marca onde é a mulher que comanda o jogo da sedução”.

O Contexto Histórico e a Quebra de Tabus

A inserção da imagem de Falabella no panorama nacional já havia sido documentada pela psicóloga e pesquisadora Adriana Nunan no livro Homossexualidade: do preconceito aos padrões de consumo. A autora situa a campanha dentro de uma série de ações disruptivas da DuLoren entre 1995 e 2000, veiculadas em revistas de grande circulação como IstoÉ e Desfile. O portfólio da marca no período incluía fotografias com a performer Isabelita dos Patins, além de representações de casais homoafetivos, masculinos e femininos, em contextos que desafiavam o conservadorismo editorial da época.

Nunan correlaciona aquele momento do mercado à ascensão de publicações voltadas ao público homossexual, como a revista G Magazine, que uniam jornalismo e nudez masculina com celebridades, em uma estratégia similar à das revistas masculinas heterossexuais. A transição das bancas de jornais para as telas dos smartphones transforma o anúncio original de Falabella em meme, print e objeto de estudo cultural.

Desvios de Sentido e Perspectiva Global

O uso do corpo masculino para promover vestuário íntimo feminino também encontra paralelos em dinâmicas globais recentes, embora sob diferentes motivações. Restrições regulatórias na China, por exemplo, levaram modelos homens a vestir lingeries em transmissões de live commerce para contornar a censura digital à exibição de corpos femininos em trajes íntimos.

No caso brasileiro da virada do milênio, contudo, a presença de Falabella operava sob a égide da irreverência e do impacto visual planejado para o papel. O fenômeno atual de redescoberta do anúncio demonstra que o consumo e a representação da roupa íntima extrapolam as divisões rígidas tradicionais de gênero, provando que uma peça publicitária de revista pode adquirir sentidos que escapam ao planejamento original dos criadores.

Foto: Reprodução/X

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✍️ Thiago Otero Jornalista | Cultura, Carnaval e Entretenimento.

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