Morre Noca da Portela, ícone do samba e baluarte da Majestade do Samba, aos 93 anos.

Compositor de clássicos do Carnaval carioca e um dos maiores vencedores de disputas na azul e branca de Madureira, o sambista deixa um legado de sete décadas dedicadas à música popular brasileira; agremiação decreta luto oficial de três dias.

A Portela anunciou, na noite deste domingo, 17 de maio de 2026, o falecimento de um de seus mais ilustres baluartes: Osvaldo Alves Pereira, amplamente conhecido no cenário cultural como Noca da Portela. O sambista, cantor e compositor faleceu aos 93 anos. A presidência da agremiação decretou luto oficial de três dias em homenagem ao artista, cujos detalhes sobre velório e sepultamento serão divulgados em breve.

Mineiro de origem, Noca mudou-se para o Rio de Janeiro ainda na infância, onde consolidou uma trajetória referencial na história do samba. Figura emblemática e assídua na quadra de Oswaldo Cruz e Madureira, o compositor destacou-se como um dos maiores vencedores de disputas de samba-enredo na Portela, assinando sete obras oficiais, com destaque para os hinos dos carnavais de 1995 — ano em que conquistou seu primeiro Estandarte de Ouro com "Gosto que me enrosco" — e de 2015.

Origens e a fundação do Paraíso do Tuiuti

Antes de se consagrar na azul e branca, Noca iniciou suas atividades profissionais no final da década de 1950. Em 1958, integrou o Trio Tropical como cantor e compositor, realizando turnês por Minas Gerais, Pernambuco e Bahia. No mesmo período, participou ativamente da fundação da escola de samba Paraíso do Tuiuti, no bairro de São Cristóvão, agremiação para a qual compôs sambas-enredo vitoriosos como "Apoteose da Academia Militar das Agulhas Negras", "Os Imortais da MPB", "Rio, carnaval e batucada" e "Vida e Obra de Cecília Meirelles", este último gravado por Jamelão.

O ingresso na Portela e o Trio ABC

A ligação definitiva com a Portela ocorreu no final dos anos 1960. Em 1966, a convite de Paulinho da Viola, atuou como violonista no espetáculo "Carnaval para principiantes", no Teatro Opinião, sendo posteriormente introduzido na Ala dos Compositores da agremiação de Madureira. Na escola, adotou o nome artístico definitivo e formou o Trio ABC da Portela, ao lado de Picolino e Colombo.

O trio destacou-se nacionalmente e obteve posições de prestígio no "II Concurso de Música de Carnaval", promovido pelo Museu da Imagem e do Som (MIS), com as composições "Portela Querida", gravada por Elza Soares na Odeon, e "É bom assim", defendida por Gasolina. Entre 1966 e 1968, o músico integrou também o grupo Os Autênticos, com Mauro Duarte, Adélcio Carvalho, Eli Campos e Walter Alfaiate.

Consagração, premiações e parcerias de peso

Ao longo de sete décadas de carreira, Noca colecionou premiações e colaborações com os principais nomes da Música Popular Brasileira. Em 1969, obteve o primeiro lugar no Concurso de Carnaval do Teatro Municipal de São Paulo com a canção "Chorei, sofri, penei". Entre suas parcerias mais célebres constam:

  • Jackson do Pandeiro: Com quem compôs "Festa do arraiá" (1971);

  • Martinho da Vila: Coautor de "Nem a lua" (1978);

  • Nelson Gonçalves: Parceiro em "Aos pés do altar";

  • Délcio Carvalho: Com quem assinou "Meu escudo" (gravada por Beth Carvalho em 1976), "Vendaval da vida" (gravada por Alcione em 1986) e "Ausência" (1980);

  • Beth Carvalho: Intérprete consagrada de suas obras, incluindo o sucesso "Virada" (1982), composto por Noca em parceria com seu filho Noquinha.

Na Marquês de Sapucaí, o compositor assinou o samba-enredo "O Homem de Pacoval" em 1976 e sagrou-se campeão do Carnaval carioca de 1985 com o enredo "Recordar é viver". Na década de 1990, além do título de 1995, conquistou mais dois prêmios Estandarte de Ouro consecutivamente pelos sambas-enredo "Os olhos da noite" (1998) e "Pelos caminhos de Minas Gerais" (1999).

Sua vasta lista de intérpretes abrange vozes consagradas como Maria Bethânia (que imortalizou "Ilumina"), Clara Nunes, Paulinho da Viola, Nana Caymmi, Grupo Fundo de Quintal, Neguinho da Beija-Flor, Roberto Ribeiro, Bezerra da Silva, Leci Brandão, Nara Leão, MPB-4 e Candeia.

Atuação cultural e projetos fonográficos

O espírito empreendedor e de salvaguarda do gênero levou o sambista a fundar, em 1997, a Casa de Noca, espaço cultural itinerante voltado ao resgate do samba de raiz que passou por bairros como Gávea, Ipanema e Praça XV. Na radiodifusão, comandou o programa "Casa do Noca" na Rádio 94 FM no final da década de 90. Em 2001, o artista registrou seu depoimento biográfico para o acervo do Museu da Imagem e do Som (MIS).

Na discografia solo e em projetos especiais, destacam-se os álbuns:

  • Brasilidade (1990): Lançado pela gravadora Fama;

  • Samba verdadeiro (1998): Lançado pelo Selo Bahamas;

  • 51 anos de samba (2003): Registro comemorativo gravado no MIS com participações da Velha Guarda da Portela, lançado também em espetáculo no Teatro Rival;

  • Samba, saúde & simpatia (2004): Em parceria com Roberto Medronho e ilustrações do cartunista Lan;

  • Cor da Minha Raça (2011): Produzido pelo maestro Rildo Hora, reunindo obras autorais antigas e inéditas;

  • Homenagens (2017): Produzido por Mauro Diniz, contendo a faixa inédita "Basta papai", última parceria assinada com Dona Ivone Lara.

Demonstrando constante engajamento político e social, Noca compôs em 2012, ao lado de Sérgio Fonseca, a faixa "Um samba para Oscar", tributo ao arquiteto Oscar Niemeyer, seu antigo correligionário no Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Recentemente, em 2023, o compositor subiu ao palco da casa de shows Imperator, na Zona Norte do Rio de Janeiro, para celebrar seus 90 anos de idade e sete décadas de atividade artística. O espetáculo festivo contou com a presença de convidados como Dudu Nobre, Moacyr Luz, Péricles e a Velha Guarda da Portela, reafirmando a posição do baluarte como uma das referências vivas mais respeitadas do Carnaval e da música nacional.

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