A Memória do Rei e o Sumiço da Calunga: Imperatriz Leopoldinense divulga sinopse de enredo que evoca as tradições do maracatu e o mistério de "Dona Júlia" para o Carnaval 2027.

Com enredo assinado por Leandro Vieira, a verde e branco da Leopoldina mergulha na ancestralidade de Pernambuco através da história real de uma calunga sagrada que ficou desaparecida por mais de três décadas.

A Imperatriz Leopoldinense deu o pontapé inicial para o seu próximo desfile. A Rainha de Ramos divulgou oficialmente a sinopse do seu enredo para o Carnaval 2027. Intitulado “A memória do Rei e o sumiço de Dona Júlia”, o tema é de autoria do carnavalesco Leandro Vieira, que propõe um mergulho profundo no universo do maracatu de baque virado e nas conexões religiosas entre o Brasil e a África. 

O fio condutor da narrativa é a trajetória mística de Dona Júlia, uma calunga, boneca sagrada que abriga a energia dos antepassados, pertencente ao Maracatu-Nação Porto Rico, de Pernambuco.

Abaixo, a sinopse completa do enredo da Imperatriz Leopoldinense para o Carnaval 2027: 

Sinopse do Enredo: ‘A Memória do Rei e o Sumiço de Dona Júlia’

Todo maracatu que desfila não conta exclusivamente a sua própria história: Ele narra algo mais antigo. Uma história, antes da história. Guiado pelo baque do tambor, o maracatu atravessa a imensidão do Atlântico e a extensão dos séculos em busca do que se foi. Ele é o passado e o presente. Ele é a África e o Brasil.

Seu desfile nos leva a uma viagem guiada por uma ancestralidade embalada pelo som. Olhá-lo nos garante acesso a um cortejo em terras africanas. Miragem que nos faz ver o antigo Reino do Congo. Império engalanado em noite de festa. Visão esfuziante que nos faz testemunha da coroação de um monarca negro. Rei majestoso de pele retinta entronada.

O que se vê é a celebração do poder em cortejo. Música e dança. Teatralização majestosa que ecoa numa realeza ancestral que desfila desde tempos imemoriais.

O baque do tambor do Reino do Congo se fez ouvir em terras brasileiras. Agora, o couro vibra e nos leva ao Nordeste do Brasil. Enquanto o som ecoa, o velho reino existe. Enquanto o séquito real caminha pelas ruas do velho Recife, o rei e a rainha do Congo estão entre nós. A origem bantu, ganha o seu traço nagô. Em Pernambuco, a dor do exílio transformou-se em beleza. Novas vestes, outros caminhos, a mesma dignidade.

Aqui, é o porta-estandarte quem anuncia o novo reino que desfila. Na sequência, a dama do paço conduz os mundos invisíveis. O rei e a rainha estão protegidos do sol. Por cuidado, suas capas não podem tocar o chão. Coroados, eles não são meros personagens. São a memória soberana que sobreviveu à travessia. O bem mais valioso, seguido e festejado pela corte que lhes acompanha em cortejo.

Mundo colorido de reinvenções para uma nova existência. Criação moldada feito boneco de barro do chão do Brasil. Uma nova realidade forjada entre as paredes do terreiro. O povo da macumba que desfila vestido de rei e rainha. Brincadeira séria, que se mostra na festa portando ancestrais divinizados carregados como estatuetas de mão. Um mundo de beleza que se sustenta nos mistérios do sagrado.

Dentre os segredos envolvendo a ancestralidade do maracatu, nada é mais representativo e simbólico que os mistérios da calunga. Boneca fetiche e guardiã da secreta presença dos ausentes. Assentamento dos que vieram antes e seguem guiando os passos dos que ainda estão por vir.

Como exemplo, a princesa Dona Júlia. Calunga de imbuia e cera tingida de pigmento negro. Braços e pernas de lenho articulado. Cabeça esculpida em madeira nobre. Cabelo humano bem penteado. Vestido de renda brilhante, colares, joias e capa de veludo bordada em paetês.

Calunga feita a mando do rei coroado do Maracatu-Nação Porto Rico, Eudes Chagas, cinco anos após Dona Santa ser guiada ao òrun. A boneca confeccionada era, na verdade, um trono numa estatueta feminina para que Dona Santa - mãe e mão que lhe iniciou no culto do Xangô de Pernambuco - pudesse seguir próxima dele.

Ausência sentida traduzida em presença. Rainha morta, que não foi posta. A morada do egun da matriarca catimbozeira, da detentora dos segredos da Jurema e Rainha do Maracatu Elefante. Dona Júlia, a calunga, era a presença viva de Maria Júlia do Nascimento, a Dona Santa. Reverenciada no terreiro e alimentada pelo preceito da espiritualidade.

Erguida pela dama do paço nas saídas carnavalescas do Maracatu Porto Rico por mais de uma década, a boneca foi a presença que deu proteção ao maracatu de pai Eudes até o dia de seu encantamento.

Com a morte de seu líder e babalorixá, no final dos anos setenta, os objetos sagrados do Maracatu-Nação Porto Rico foram levados para o museum. Lugar seguro, como mandam as tradições, para guardar algo que brevemente poderia ser solicitado. Naquele espaço, artigos de valor simbólico inestimável estariam resguardados até que a sucessão do Porto Rico – e a sua nova liderança - fosse caso resolvido. Foi assim que Dona Júlia – calunga sagrada ligada ao culto dos eguns – foi parar no museu.

Longe do terreiro, foi guardada em desencanto. Ali, ela era um objeto deslocado de seu sentido sagrado. Mero artefato. Artigo guardado à espera de retornar às mãos daqueles que, com autoridade e autorização, colocariam o maracatu do falecido Eudes na rua e, com isso, reivindicariam sua posse.

Dois anos se passaram até que a missão de tirar o Porto Rico do Museu foi destinada à mãe Elda Viana. Neta de santo de Eudes, ela foi a liderança confirmed pela ancestralidade como apta para a reorganização daquele maracatu. Foi nessa ocasião, ao reivindicar a calunga sagrada de sua nação para voltar ao terreiro e à rua, que os integrantes do Porto Rico tomaram conhecimento do sumiço da calunga que permaneceria desaparecida por longas décadas.

O museu, que devia zelar por sua integridade, informou que Dona Júlia havia desaparecido de suas dependências de forma desconhecida. Mistério duradouro. Ausência e vazio sentidos por mais de três décadas. Certeza de furto e extravio definitivo até que, após trinta e quatro anos de sumiço, a boneca foi levada a um terreiro de candomblé em Olinda acusada de assombrar o morador da residência que, naquela ocasião, era o endereço que escondia seu paradeiro.

Deixada no Ilê Axé Oyá Meguê – sua última localização antes de voltar para a sua verdadeira casa e para as mãos de seus reais donos - a calunga foi entregue aos cuidados das tradições do Xambá. Lá, guiados pela ancestralidade e pela dúvida sobre como proceder diante do objeto misterioso, os sacerdotes do culto recorreram à tábua sagrada e ao jogo dos dezesseis búzios lançados sobre a trama da arupemba. Respondidos pelas divindades, a vontade dos orixás foi a lei: A boneca não podia ficar naquele Ilê. Mais do que isso, todos os esforços deviam ser prioridade para que aquele artigo atingisse o intuito que o havia levado até a porta do Xambá e ao colo de Oyá.

A prioridade para resolução da demanda alcançou o êxito e a calunga voltou para o seu Maracatu de origem dias antes do carnaval 2014. Seu aparecimento foi notícia que correu de boca em boca. De volta aos preceitos religiosos do Ilé Axé Oxóssi Guangoubira após trinta e tantos anos sem cuidados, Dona Júlia estava em desencanto espiritual. Na ocasião, ela era uma boneca que guardava orixá com fome e egun quebrantado. Madeira morta e inanimada.

Para voltar à vida, como se um sopro pudesse lhe encher o pulmão vazio de ar, era necessário preceito e encantamento. Por isso, em toda parte e por todo canto, seu corpo foi limpo com morim vermelho, roxo, branco e preto. Da cabeça aos pés, quatro carreteis de linha foram desenrolados. Ali não mais havia embaraço. Livrou-se de qualquer possível mal e da presença da morte quando um acaçá percorreu sua silhueta. Na sequência, toda sorte de grão seco foi lançado sobre a madeira escura onde seu contorno humano havia sido esculpido.

Era preciso limpeza profunda. Então, entoaram-se as cantigas sagradas para que a energia das folhas de boldo e colônia despertassem antes de se somarem às águas que banhariam a boneca. O líquido derramado lhe abriu as portas para a incorporação. Na intimidade do terreiro onde o umbigo da calunga estava plantado, seu corpo foi colocado diante de um vasilhame de barro - farto em mingau de farinha - do abanador de palha e da colher de pau.

Vela acesa e copo d’água. Pólvora incendiada. A fumaça sobe e a chama aquece os pés da estatueta. O orixá derrama encantamento e atua para animá-la. Em sua cabeça - orí esculpido em madeira que já foi árvore – o mistério é guardado por entre as três frestas abertas tal qual ferida na pele.

O ichãn toca o chão. O galho, preparado no quarto de igbalé, guia o caminho do egun evocado. Dona Júlia se encanta. Agora, ela é madeira viva e sagrada. Boneca que tudo enxerga e boca que come sem se mexer. Levada ao igbá de Oxalá, sentiu sua energia pulsar mais forte quando o sangue de uma cabra, um casal de pombos e cinco galinhas (sendo uma d’angola) escorreu por seu corpo.

Na sequência, vestiram-na de branco. Recolhida no peji (roncó), cumpriu resguardo de três dias antes de ganhar a rua e a folia. Boneca que guarda egun, Dona Júlia passa a falar pela boca de Oyá Igbalé. É a dona dos ventos e senhora da vida e da morte que lhe anima durante sua ida para o cortejo do Maracatu-Nação Porto Rico.

Assim, encantada, foi erguida pelas mãos da dama do paço e conduzida ao carnaval. Depois de tanta ausência, ganhou as ruas do Recife num domingo de momo. Junto ao maracatu que parte do bairro do Pina, brincou à frente da corte, guiada pelo estandarte que leva a caravela de Santa Maria estampada como emblema e da Nação que canta e dança ao som do baque das ondas.

No dia seguinte, uma segunda-feira, foi levada em cortejo noturno para o Pátio do Terço. A folia que marca seu retorno às tradições carnavalescas se encerraria à noite. Uma noite de maracatu onde os tambores tocam - e também se silenciam – para reverenciar quem partiu. Diante da igreja, a ausência de quem se encantou é também a memória dos reis e das rainhas que foram coroados tendo como espectadora a imagem da Virgem do Rosário. Gente que vinha e não vem mais.

Tendo a escuridão do céu como testemunha, o relógio marca a zero hora. A lua da meia-noite boia no céu do mundo visível dos vivos para fazer resplandecer o sol do meio-dia que brilha e anima o reino invisível dos que estão mortos. É nessa hora que as luzes se apagam e a senhora do portão que cede a passagem do Òrun para o Àiyé se manifesta. Quem vinha, agora pode voltar a vir.

Os tambores tocam e a ancestralidade baila. Hora em que Dona Júlia se mostra viva enquanto baila energizada ao sabor das mãos da dama do paço. Ambas, corpos vivos que giram no sentido contrário ao do relógio.

À meia-noite, a princesa Dona Júlia não dança no sentido dos ponteiros que marcam as horas que virão. Ancestral, ela dança no ar sustentada pela dama do paço e se manifesta encantada por buscar - assim como os tambores, os corpos que desfilam e a escola de samba que cruza a avenida - um encontro marcado com aquilo que já se foi.

A força da herança cultural no ecossistema do samba

A escolha do tema reforça a linha de pesquisa de Leandro Vieira, carnavalesco conhecido por resgatar manifestações populares e histórias apagadas das cronologias oficiais. Ao centralizar a disputa e o resgate de Dona Júlia, a Imperatriz aborda a importância da preservação dos acervos sagrados das religiões de matriz africana e a delgadeza que envolve a custódia institucional de símbolos de fé, muitas vezes tratados como "meros artefatos" fora de seus contextos rituais.

O desenvolvimento do enredo contou com a colaboração direta de lideranças tradicionais, entre as quais Mestre Chacon, comandante do Maracatu Porto Rico e sacerdote do Ilê Axé Oxóssi Guangoubira, a quem Vieira expressou formalmente seus agradecimentos por abrir as portas dos mistérios dos terreiros. Com essa proposta, a escola de Ramos projeta um desfile de forte impacto visual e densidade litúrgica na Marquês de Sapucaí.

Logo: Antonio Vieira
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✍️ Thiago Otero Jornalista | Cultura, Carnaval e Entretenimento.

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