Porto da Pedra lança sinopse do enredo “Porto Kalunga” e celebra conexão Brasil-Angola para o Carnaval 2027.
A Unidos do Porto da Pedra lançou a sinopse do seu enredo para o Carnaval 2027, intitulado "Porto Kalunga". Desenvolvido com base no texto e pesquisa de Alex Carvalho, Beatriz Chaves, Caio Cidrini e Thainá Santos, o tema resgata a histórica expedição do Projeto Kalunga, realizada em maio de 1980. Naquela ocasião, uma caravana de 64 proeminentes artistas brasileiros cruzou o Oceano Atlântico rumo a Angola, nação africana que havia recentemente conquistado sua independência do domínio colonial português. O intercâmbio artístico estabeleceu profundos laços socioculturais e espirituais entre os dois países através da música, da dança e de ancestralidades compartilhadas.
A proposta conceitual da escola reconecta o município de São Gonçalo e o Rio de Janeiro à herança banto, destacando que cerca de 3 milhões de africanos escravizados no Brasil originaram-se da região da atual Angola. A jornada de 1980 contou com ícones como Martinho da Vila — carinhosamente aclamado como embaixador cultural pela população angolana —, João Nogueira, Dorival Caymmi, Dona Ivone Lara, Djavan e Chico Buarque, cujas vivências em solo africano resultaram em composições emblemáticas e transformações artísticas indeléveis. O enredo se estruturará musicalmente a partir de um pout-pourri que une as obras "Semba dos Ancestrais" (Martinho da Vila), "Angola" (Mart'nália) e "Lá de Angola" (João Nogueira).
Confira abaixo a íntegra da sinopse do enredo da Porto da Pedra para o Carnaval 2027:
APRESENTAÇÃO
“Se o povo te impressionar demais É porque são de lá os teus ancestrais Pode crer no axé dos teus ancestrais”
“Sou filha da Angola Sou neta da Bahia Sou cria da poesia Que vem das ondas do mar”
“Gente que lutou pra se libertar Ver no amanhã novo Sol chegar Ter que trabalhar, reconstruir Bom futuro há de vir Eu vi Luanda, Benguela, Lobito e outras mais Na Catumbela, o samba jorrou, me deu sinais Que naquela terra cantaram, sambaram meus avós”
Pout-pourri com: “Semba dos Ancestrais” de Martinho da Vila, “Angola” de Mart’nália e “Lá de Angola” de João Nogueira.
Em 12 de maio de 1980, 64 artistas brasileiros deixaram o Rio de Janeiro para cruzar o Atlântico. O destino? Angola, país africano recém-liberto das garras do colonialismo português. Assim como o Brasil, esse povo se empenhou em superar a violência da colonização para estabelecer uma ideologia da cultura nacional angolana. A turnê político-artístico-musical pelas cidades de Luanda, Benguela e Lobito levou na bagagem uma sofisticada diversidade musical em intercâmbio com as expressões locais de saberes, culturas, danças e músicas. Intercâmbio este que existia antes, existiu durante a viagem e sempre vai existir entre as duas nações. Dos cerca de 4,5 milhões de homens, mulheres e crianças pretas escravizadas através dos séculos XVI e XIX, calcula-se que cerca de 3 milhões sejam de origem bantu, da região da atual Angola.
SINOPSE
Sejam bem-vindos de volta.
Eu sou a Angola que assenta no teu mutuê. O mar assistiu em segredo a sua partida sem despedida, mas o agora não mora nas dores do Atlântiko, habita no retorno. Sou PortoTerreiro, feito que arde como jindungo. Sou barro e terra onde nossos ancestrais ainda escutam o rugir do Tigre no bailar do vento. Símbolo este que te convida de volta.
Mas não venha como estrangeiro!
Pise como quem nunca partiu: peça licença, pise descalço, bata cabeça. Cante e dance as nossas músicas; Reverencie nossos heróis; Coma a nossa comida com as mãos, sinta o gosto dos dedos. O tambor te chama pelo nome! Deixe-me ver nossos deuses no teu corpo. Sussurre ao sagrado o segredo dos teus ancestrais.
Bem-vindos de volta.
Mesmo com o corpo tomado em luta nesses últimos anos, me refiz nas feridas e cobri cicatrizes para conhecer o que fez com as sementes que eu te dei. Sei que plantou em morros, cortejos, palcos, ruas, sambas e sembas. A arte popular que de longe me vi estar. Trago comigo novas sementes plantadas em Luanda, Benguela e Lobito, território livre de onde vi brotar a cultura do povo.
Volte e pegue.
Não esqueça de mim, pois nunca te esqueci. Para andar para frente, não deixe de olhar para trás. Resgate a sabedoria e as raízes do meu passado que brotam em seu legado. Vejo meus galhos no folclore alagoano de Djavan; na Morena de Angola de Clara e Chico; na negra-Bahia de Caymmi; no colo materno africano embalado na Madureira de Dona Ivone; na Ilha de Mussulo de João Nogueira "teve gente que chorou"; "Mas se teu povo te impressionar demais," Martinho, "Pode crer no Axé do Seus Ancestrais" e faz dessa kizomba a constituição dessa nação Brasingola, fruto do embondeiro que perpetua nossos laços.
Através do neologismo "Brasingola" — termo presente no glossário oficial que define a união indissociável entre as duas nações —, a Unidos do Porto da Pedra planeja transformar o Sambódromo em um verdadeiro "PortoTerreiro". O desfile celebrará o embondeiro, árvore símbolo de resistência e força, consolidando a importância do resgate histórico e da identidade cultural afro-brasileira para o próximo ciclo carnavalesco.
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Thiago Otero Jornalista | Cultura, Carnaval e Entretenimento.
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