A sinfonia que marcou o Brasil: os 70 anos do primeiro encontro musical entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes.
Afirmar que "Garota de Ipanema", gravada em 1962, é um marco indelével da Música Popular Brasileira (MPB) e a canção nacional mais conhecida em todo o planeta é chover no molhado. Contudo, a aliança criativa por trás dessa composição icônica, que se tornou um verdadeiro símbolo de brasilidade pelo mundo, começou bem antes. Em 25 de setembro de 1956, há exatos 70 anos, estreava no imponente Teatro Municipal do Rio de Janeiro a peça musical "Orfeu da Conceição".
O espetáculo trazia o texto do já famoso poeta e diplomata Vinicius de Moraes (1913-1980) e as canções de um jovem e virtuoso pianista chamado Antônio Carlos Jobim (1927-1994), o Tom Jobim, que até então ganhava a vida tocando em inferninhos da noite carioca.
A ponte entre esses dois universos foi construída pelo jornalista Lúcio Rangel (1914-1979), então diretor da Revista da Música Popular. Sabendo que Vinicius procurava um compositor para musicar seu texto dramático, Rangel apresentou o promissor pianista ao diplomata.
"Esse encontro foi determinante para o que se desdobraria depois no que a gente chamou de MPB", define o jornalista e crítico musical Leonardo Lichote, um dos editores da coleção Cadernos de Música.
Para o músico, compositor e diretor de arte Bruno Leo Ribeiro, do podcast Silêncio no Estúdio, a reunião dos dois artistas marcou "a consolidação oficial do que conhecemos como Bossa Nova". "Não que eles tenham inventado a coisa, mas foi essa parceria que criou a mitologia entre letra e música", explica Ribeiro. "Na parte lírica, antes as músicas no rádio eram sobre sofrimento, drama e dores de cotovelo; com a dupla, tudo virou uma observação da beleza do cotidiano. Da beleza e contemplação do belo".
Inovação estética, cenário monumental e o Teatro Experimental do Negro
A montagem original de "Orfeu da Conceição" nasceu sob o signo da história. Além do viés inovador de transformar a realidade e os dramas das favelas cariocas em pano de fundo para a cena teatral, a produção contou com uma cenografia grandiosa assinada pelo arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012), cuja projeção profissional já alcançava patamares elevados na época.
Ribeiro situa a estreia da peça em um contexto sociocultural específico, no qual o Brasil vivenciava um otimismo contagiante e respirava ares de modernidade. "Era um movimento cultural completo, com arte, arquitetura, música convergindo para o otimismo de um Brasil novo", aponta o especialista.
Outro marco fundamental daquela encenação foi a composição do elenco. "Orfeu da Conceição" foi levado ao palco pelo Teatro Experimental do Negro (TEN), companhia fundada pelo dramaturgo e ativista Abdias Nascimento (1914-2011). Aquela foi apenas a segunda oportunidade na história em que atores e atrizes negros ocuparam o palco principal do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
No enredo da obra, Vinicius de Moraes reinventa e atualiza o mito grego de Orfeu, transpondo o personagem clássico para o ambiente dos morros cariocas. Na mitologia, Orfeu é célebre por seus dotes musicais e tenta resgatar a amada do submundo com o toque de sua lira.
"A peça representava um negócio muito interessante porque tinha essa modernidade associada a uma conquista que se dava em paralelo que era o Teatro Experimental do Negro, que afirmava a presença negra nas artes, conquistando espaço em ambientes de elite", avalia Leonardo Lichote. O crítico ressalta que o espetáculo promoveu a junção de duas correntes sociais em plena afirmação no país: a modernidade intelectual branca, de influência europeia, e o movimento negro, que lutava pelo domínio de espaços culturais nobres. "O mito grego e a favela. Isso obviamente teve impacto", sintetiza.
As contradições de um olhar da época
Apesar de Vinicius de Moraes ter classificado o musical como uma homenagem ao negro brasileiro, análises contemporâneas apontam contradições e anacronismos no texto, evidenciando o ponto de vista de um intelectual branco.
"Ele representava o olhar mais progressista daquele momento e, num certo sentido, foi bastante carinhoso diante daquele universo", observa Lichote. "Mas é inegável que o negro se torna nobre por meio da cultura grega, como se não pudesse ser nobre por seus parâmetros, como se precisasse da cultura europeia para atingir o status de nobreza".
Essa visão do período reflete-se inclusive nas escolhas dos arranjos instrumentais. A base sonora da peça esteve centrada no violão. "A percussão na peça está associada ao caos. Isso carrega a perspectiva de que a sociedade daquele momento era racista", pondera o crítico. "Não que Vinicius de Moraes fosse racista, mas que a peça trazia elementos que hoje, à distância, conseguimos perceber que eram pontos racistas daquela sociedade, elementos que representavam o olhar daquela sociedade".
Configurou-se, assim, uma clara dicotomia social e estética. "Ao mesmo tempo que a peça valoriza a favela como lugar digno de ser palco de grandes dramas humanos, ela romantiza a favela. O mesmo ocorre com o negro", acrescenta Lichote. Por sua vez, o músico Felipe Julián Goldfarb, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), identifica nesse encontro inicial o alicerce para a posterior valorização e reverência da cultura afro-brasileira no âmbito da MPB.
O alicerce da Bossa Nova e o surgimento de um catálogo duradouro
O sucesso da montagem abriu alas para uma colaboração duradoura e prolífica entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Em 1959, o cantor e violonista João Gilberto (1931-2019) lançou o álbum "Chega de Saudade", considerado o trabalho inaugural da Bossa Nova. O disco apresentou duas parcerias da dupla, entre as quais a própria faixa-título.
"Eles são compositores centrais. Obviamente não fizeram isso sozinhos, tiveram antecedentes", afirma Lichote. "Mas foram os principais formatadores do que a gente chamou de Bossa Nova: o Vinicius pelo lado lírico, as letras; o Tom pelos procedimentos harmônicos e melódicos, o lado da música". Ele complementa ressaltando a contribuição do violonista baiano: "E João Gilberto foi aquele cara que, através do violão, conseguiu arrematar a proposta e dar forma final, definida e sintética ao projeto".
A produção musical dos dois autores destacou-se por construir duas linhas fundamentais. Primeiramente, expressou o ideal desenvolvimentista de um país que se projetava com otimismo para o exterior — uma visão do "Brasil do futuro" que acabou interrompida anos mais tarde pelo golpe militar de 1964. Em segundo lugar, estabeleceu uma estrutura harmônica refinada que serviu de fundação para a geração seguinte. "Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, todos eles foram brutalmente influenciados pelo disco 'Chega de Saudade', do João Gilberto. E o que tem ali é Tom e Vinicius", enfatiza Lichote.
Além da dimensão artística, a pesquisadora da ESPM e fundadora da escola Music Rio Academy, Anita Carvalho, destaca a eficiência da gestão profissional mantida pela dupla. "A gente fala muito do encontro entre dois gênios e não avalia a parceria profissional, algo que durou décadas e funcionava", explica. "Isso não é comum porque parceria criativa de longo prazo é desgastante. Mas eles não só se sustentaram ao longo do tempo como criaram um repertório que sustentou as duas carreiras. É o que hoje chamamos de 'formar um catálogo'".
Anita Carvalho pondera também o papel estratégico de Vinicius na captação de recursos. "Como diplomata, ele circulava pela Europa e tinha redes de contatos. Ele fazia a parte mais difícil: o trabalho de um empresário que conseguia abrir portas e viabilizar um projeto", detalha a pesquisadora. "Quando ele procurou alguém para fazer a música de Orfeu, ele estava contratando. E não digo isso diminuindo o talento dos dois. É o contrário. Porque talento não se organiza sozinho e movimento artístico nenhum nasce sem estratégia de gestão".
Do sucesso internacional ao prêmio no Oscar
No ano de 1962, a aliança entre Jobim e Moraes atingiria o ápice com o surgimento de "Garota de Ipanema", que se tornou a faixa brasileira mais executada, regravada e difundida em todo o mundo. Na avaliação de Bruno Leo Ribeiro, a relevância da dupla para a história da música global equivale à marca deixada pelos ex-Beatles John Lennon (1940-1980) e Paul McCartney.
Sob a ótica sociológica, a obra da dupla exerceu papel central na própria invenção simbólica da nação. "Eles fundam também um país. Porque o país é uma nação construída a partir do que se diz dela, o que se pensa dela, como ela é projetada. Eles projetaram um outro Brasil", argumenta Lichote. "Deram possibilidades para que se criasse uma nova música popular brasileira, que mostrasse um outro país. Foram fundamentais para a música e para a cultura brasileiras".
O alcance de "Orfeu da Conceição" ultrapassou os palcos teatrais de 1956. Naquele mesmo ano, a gravadora Odeon lançou o LP homônimo contendo a trilha sonora da peça, registrando o primeiro disco assinado conjuntamente por Tom e Vinicius, com clássicos como "Se Todos Fossem Iguais a Você".
O desdobramento mais ambicioso da obra viria no cinema. O cineasta francês Marcel Camus (1912-1982) adaptou o texto para as telas em uma produção gravada no Rio de Janeiro. Como revela Anita Carvalho, a negociação dos direitos cinematográficos ocorreu em uma manobra ousada antes mesmo da estreia teatral. Vinicius vendeu os direitos ao produtor Sacha Gordine (1910-1968) e aplicou os recursos obtidos para custear a montagem no Teatro Municipal. "Foi uma engenharia de projeto bastante sofisticada. Ele usou os direitos de adaptação de uma obra que ainda não existia em cena e, com isso, pagou a produção. Hoje chamamos isso de pré-venda de direitos", analisa Carvalho.
A adaptação cinematográfica, batizada de "Orfeu Negro", venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes e conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, projetando definitivamente as criações de Tom e Vinicius no cenário global. Anos mais tarde, em 1999, o diretor brasileiro Cacá Diegues realizou uma nova versão cinematográfica da obra, lançada com o título "Orfeu". O texto original voltou a ganhar os palcos em 2010, em uma nova montagem teatral dirigida por Aderbal Freire-Filho (1941-2023), confirmando a atemporalidade de um clássico nascido há sete décadas.
Foto: Paulo Scheuensthul
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Thiago Otero Jornalista | Cultura, Carnaval e Entretenimento.
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