O jornalista e escritor Zuenir Ventura morreu aos 95 anos nesta terça-feira (22). Com uma trajetória que ultrapassa seis décadas no jornalismo brasileiro, o autor construiu uma obra de referência no país, marcada pelo acompanhamento de grandes episódios políticos e pela profunda abordagem de temas sociais. Zuenir deixa a mulher, Mary Ventura, e os dois filhos, o jornalista Mauro Ventura e a editora Elisa Ventura.
A notícia do falecimento foi confirmada oficialmente pela Academia Brasileira de Letras (ABL). "Morreu esta manhã, em casa, aos 95 anos, em decorrência de uma pneumonia, o jornalista e Acadêmico Zuenir Ventura. Seu corpo será velado amanhã na Academia Brasileira de Letras e enterrado no mausoléu da ABL no Cemitério São João Batista", informou a instituição em nota oficial.
Sua nora, Ana Roditi, relatou que o falecimento ocorreu de forma calma e sem dor. "O corpo estava muito fraco, mas ele ainda reconhecia a família e os amigos próximos. Conversava e fazia comentários divertidos sobre o próprio envelhecimento", declarou.
Nascido em Além Paraíba, no interior de Minas Gerais, Zuenir Ventura percorreu um caminho diversificado antes de consolidar sua carreira na imprensa. Na juventude, trabalhou como pintor de parede, office-boy, jogador de basquete e arquivista. Ao ingressar nos estudos superiores, foi aluno de figuras proeminentes da literatura e da cultura nacional, como Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima e Cleonice Berardinelli.
Essas conexões acadêmicas impulsionaram seus primeiros passos profissionais. O professor Celso Cunha, da Faculdade de Jornalismo, o convidou para atuar como professor de português. Paralelamente, por indicação de Hélcio Martins, ingressou no arquivo do jornal Tribuna da Imprensa, dando início à sua trajetória na comunicação social.
Em 30 de outubro de 2014, Zuenir foi eleito para a ABL, tornando-se o sétimo ocupante da Cadeira n.º 32, na sucessão do escritor Ariano Suassuna.
Ao longo da carreira, assinou reportagens e livros de grande impacto público. Em 1988, lançou "1968 - o ano que não terminou", obra consagrada sobre o período do regime militar no Brasil. O livro serviu de inspiração para a minissérie Os Anos Rebeldes, produzida pela TV Globo, enquanto o capítulo “Um herói solitário” deu origem ao filme "O homem que disse não", dirigido por Olivier Horn para a televisão francesa.
No início de 1989, atuou como repórter especial no Acre para investigar o assassinato do líder ambientalista Chico Mendes. A cobertura gerou uma série de reportagens premiada e desdobrou-se em um compromisso pessoal. Zuenir assumiu a tutela de Genésio, garoto de 13 anos e principal testemunha do crime, que corria risco de morte devido a um plano dos mandantes do assassinato. Após articulação com as autoridades para garantir a proteção do jovem, levou-o para morar com sua família. O rapaz permaneceu sob os cuidados do jornalista até completar 18 anos.
Em 1994, publicou "Cidade Partida", livro vencedor do Prêmio Jabuti. A partir do acompanhamento da rotina em Vigário Geral após a chacina de 1993, a obra examinou as divisões sociais, a desigualdade e a violência urbana no Rio de Janeiro.
O reconhecimento ao seu trabalho incluiu as principais premiações da imprensa brasileira, como o Prêmio Esso e o Prêmio Vladimir Herzog. Em 2008, recebeu da Organização das Nações Unidas (ONU) uma homenagem especial como um dos cinco jornalistas que mais contribuíram para a defesa dos direitos humanos no Brasil nas três décadas anteriores.
Zuenir Ventura também atuou no audiovisual a convite de João Moreira Salles. Entre seus trabalhos na área estão a codireção de Um Dia Qualquer (2000) e o roteiro do documentário Paulinho da Viola: Meu Tempo é Hoje (2003), dirigido por Izabel Jaguaribe.
Foto: Leo Martins/Agência O Globo