Os 100 anos de Fernando Pamplona: A utopia encarnada do Pai de Todos os carnavalescos.

Mestre da cenografia erudita, professor revolucionou a cultura popular ao formar os maiores nomes da folia e transformar o desfile carioca em uma epítome da grandeza da negritude brasileira.

Naquela terça-feira, 26 de setembro de 1926, exatamente sete meses e doze dias após a Quarta-Feira de Cinzas, nascia no Rio de Janeiro o menino Fernando. O parto foi assistido pelo médico Pedro Ernesto, figura pública que, cinco anos mais tarde, viraria prefeito do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, e padrinho simbólico das primeiras agremiações organizadas. O recém-chegado parecia trazer no DNA a vocação do pioneirismo, algo que as quase nove décadas seguintes encarregaram-se de confirmar.

Cerca de trinta e quatro anos depois, na madrugada de uma segunda-feira, 29 de fevereiro de 1960, a Academia do Samba — o Acadêmicos do Salgueiro — hipnotizou a multidão que lotava a Avenida Rio Branco para conquistar o primeiro título de sua história isolada. Muito além da vitória original, aquela apresentação inaugurou uma nova era na folia carioca: introduziu temas e personagens populares da história não oficial e um apuro estético sem precedentes, matriz do espetáculo planetário que se assiste hoje na Marquês de Sapucaí.

Ambos os episódios têm o mesmo protagonista: Fernando Pamplona, o “pai de todos” no carnaval carioca. Mais de meio século após aquele antológico desfile sobre o Quilombo dos Palmares, a influência estética e intelectual do mestre permanece viva e estruturante. Pamplona não apenas redefiniu o que se colocava sobre o asfalto, mas formou a espinha dorsal da cenografia carnavalesca no Brasil. 

Ao lado deles, Pamplona foi o tutor artístico de Arlindo Rodrigues, Lícia Lacerda, Maria Augusta e Joãosinho Trinta — o maranhense a quem o próprio professor apontava, com indisfarçável orgulho, como o maior gênio do espetáculo em todos os tempos. Esse grupo, saído das salas da Escola Nacional de Belas Artes e das oficinas do Theatro Municipal, alterou profundamente a correlação de forças na cultura do samba. Até o fim dos anos 1950, o comando do espetáculo pertencia à cadência firme dos diretores de harmonia e aos cartolas tradicionais, representados pela figura emblemática de Natal da Portela. O Salgueiro de Pamplona inaugurou a primazia do visual, transformando o carnavalesco no epicentro conceitual do desfile.

Contudo, a consagração histórica nunca alimentou o ego do mestre. Nos últimos anos de vida, no exílio voluntário em Itaipava, Pamplona mantinha-se apartado da passarela. A batida grave do surdo já não o atraía para as arquibancadas, trocadas por partidas de carteado com amigos. 

Contudo, era um isolamento relativo: Pamplona continuava profundamente informado sobre os bastidores e os rumos da festa. Pouco antes do carnaval de 2010, em um debate promovido no Rio de Janeiro, o veteraníssimo encontrou Paulo Barros, então a estrela emergente da festa. Fiel à sua lendária franqueza, não economizou no conselho:

— Você deveria levar seus carros para expor numa feira. Só pensa no seu próprio trabalho, na sua parte visual. Tem de se preocupar mais com a escola, com a alma do desfile — disparou.

Meses depois, a Unidos da Tijuca conquistaria o campeonato com o histórico enredo É segredo!. Mesmo crítico em relação ao rumo comercial que a festa tomara nas últimas décadas, Pamplona se rendeu ao talento da comissão de frente tijucana, que trocava de roupa em frações de segundo diante do público estarrecido.

Se desligar da folia era impossível para quem fez da cultura popular o eixo da própria vida. As raízes dessa sensibilidade remontam à infância em Xapuri, no Acre, para onde a família se mudou quando ele tinha apenas cinco anos, em virtude da transferência do pai, que era promotor de justiça após a Revolução de 1930. 

“Eu não tinha medo dos bichos, boi, ema, seriema, cavalo-marinho, não, eu tinha medo era da cobra-grande, do saci ou matinta pereira, mapinguari, assombrações de verdade. Pelos bichos que dançavam e cantavam ao som de zabumbas e violas eu tinha admiração”, registrou Pamplona nas páginas de sua autobiografia, O encarnado e o branco, organizada pelo jornalista Fábio Fabato.

No retorno da família ao Rio de Janeiro, em 1935, instalando-se no bairro do Flamengo, o garoto foi acolhido por Feitiço da Vila de Noel Rosa. A transição para a idade adulta coincidiu com o fim da ditadura do Estado Novo. Aluno do tradicional Colégio Pedro II, Pamplona iniciou a militância política ao lado do amigo Marcos Jaimovitch, frequentando os comícios do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Na União Nacional dos Estudantes (UNE), conviveu com nomes que marcariam a vida pública do país, como Fernando Pedreira, Rogê Ferreira e Roberto Gusmão, a quem ajudou a eleger presidente da entidade.

A arte do jovem militante ganhou densidade ideológica no teatro universitário, universo para o qual levou uma promissora amiga chamada Nathalia Timberg. Durante um encontro estudantil em Ouro Preto, conheceu a jovem bailarina Zeni. Décadas mais tarde, no apartamento do casal em Copacabana, dona Zeni continuava a ser a cúmplice atenta que arrematava datas e detalhes das memórias desfiadas pelo marido entre baforadas de cigarro e potes de sorvete de chocolate — uma união sólida que ultrapassou a marca de seis décadas e gerou três filhas.

Na juventude, a estatura de 1,86m abriu-lhe as portas para o basquetebol no Fluminense Futebol Clube. Certa tarde, ao chegar para o treino nas dependências de Laranjeiras, deparou-se com a pintura dos cenários de uma apresentação do corpo de baile do Theatro Municipal. Fascinado pela magnitude do trabalho, procurou o chefe da cenografia da casa, Mário Conde, homem de pouca paciência:

— Já passaram oito por aqui, mandei todos embora — vociferou o veterano. — Nem comecei e você já está me ameaçando — devolveu Pamplona.

O desafio aceito deu início a uma trajetória brilhante na cenografia erudita. Pamplona participou de produções de cinema nos anos 1950 como fotógrafo de set e assistente, esteve na I Bienal de Teatro em São Paulo (1957) e assinou cenários para óperas e balés no Municipal. O escritor Carlos Heitor Cony, seu amigo fraterno, destacava dois feitos de Pamplona na alta cultura: a concepção cênica para Madame Butterfly e a reconstituição no Brasil das cenografias desenhadas por Pablo Picasso para o balé O Chapéu de Três Bicos, de Léonide Massine — trabalho aprovado pelo próprio pintor espanhol. Cony, aliás, rejeitava o rótulo exclusivo de "carnavalesco" aplicado ao amigo, preferindo defini-lo como "um artista integral e um caráter inquebrantável".

Nas horas de folga, Pamplona viveu as maravilhas de um Rio de Janeiro nostálgico, onde se deslocava pendurado no estribo dos bondes e frequentava o bar Vermelhinho, no Centro, dividindo mesas e conversas com figuras da estatura de Carlos Drummond de Andrade e Cândido Portinari.

No Theatro Municipal, onde Zeni dançava, ele passou a projetar as ornamentações dos luxuosos bailes de carnaval. Certo dia, um secretário da instituição pediu-lhe que arranjasse trabalho para um sobrinho. Como o pedido vinha do homem encarregado de assinar as folhas de pagamento, Pamplona concordou. O jovem em questão era Arlindo Rodrigues, a quem o mestre definiria mais tarde como “um intuitivo sensacional”.

Em 1959, Pamplona foi convidado para integrar o júri oficial do desfile das escolas de samba, instalado na Avenida Rio Branco. Ao lado do folclorista Edson Carneiro e do crítico Lúcio Rangel, avaliou o quesito alegorias. Quando o Acadêmicos do Salgueiro passou apresentando o enredo Viagem pitoresca através do Brasil — Debret, Pamplona concedeu à escola da Tijuca a nota 8, a maior do dia. A Portela, que buscava o tricampeonato, recebeu um 6. Diante da reclamação veemente de Natal, o jurado aceitou subir um ponto da azul e branco de Madureira, que acabou se sagrando campeã.

— Mas a nota maior permaneceu com o Salgueiro, porque eles tiveram a coragem de homenagear um artista, e não os militares e figuras oficiais que dominaram os outros desfiles — justificou, mantendo sua postura provocativa.

No final daquele ano, o presidente salgueirense Nelson de Andrade bateu à porta do cenógrafo para convidá-lo a assumir a direção artística da escola. Pamplona aceitou imediatamente, impondo uma única condição: o enredo deveria narrar a saga de Zumbi e a resistência do Quilombo dos Palmares. Andrade concordou, e a decisão mudou para sempre a história das festas populares. Do mesmo Nelson de Andrade veio o lema que acompanharia a agremiação, refinado pelo próprio Pamplona para se tornar um aforismo histórico: "Nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente".

Para dar conta da empreitada de 1960, Pamplona montou uma equipe multidisciplinar formada por Arlindo Rodrigues, o casal Dirceu e Marie Louise Nery e Nilton Sá. Paralelamente, como professor da Escola Nacional de Belas Artes, situada do outro lado da rua do Theatro Municipal, convocou seus alunos para o barracão. As alegorias, executadas no espaço de poucas semanas, ganharam forma em quintais e galpões improvisados cedidos por simpatizantes.

As salas de aula de Belas Artes eram a extensão desse espírito transgressor. Em um período de escassez de verbas, quando cupins corroíam as pranchetas da instituição a ponto de os dedos dos alunos afundarem na madeira, Pamplona entrou na sala e ordenou:

— Vamos quebrar tudo.

A turma atendeu ao comando, destruindo o mobiliário sucateado. O episódio rendeu ao professor um processo administrativo e a ameaça de demissão, mas duas semanas depois a diretoria entregava bancadas novas de fórmica.

Essa determinação alimentou uma sequência ininterrupta de desfiles memoráveis. O Salgueiro conquistou os campeonatos de 1963 com Xica da Silva (assinado por Arlindo Rodrigues enquanto Pamplona viajava à Europa com bolsa de estudos do Museu Nacional de Belas Artes); 1965 com História do carnaval carioca — Eneida; 1969 com Bahia de todos os deuses; e 1971 com Festa para um rei negro, onde Pamplona e Arlindo dividiram a autoria com os jovens Joãosinho Trinta e Maria Augusta. Em 1974 e 1975, já sob a liderança solo de Joãosinho Trinta, a escola bisou o campeonato com O rei de França na ilha da assombração e O segredo das minas do rei Salomão.

A revolução estética não trouxe ganhos financeiros para Pamplona. Pelo contrário: para colocar os carros na rua, o cenógrafo por vezes assumiu dívidas pessoais, movido por uma ligação visceral com a agremiação vermelha e branca.

— Nunca admiti trabalhar para outra escola — costumava repetir.

Ele resistiu a investidas financeiramente tentadoras. Em uma ocasião, Natal da Portela marcou um encontro no bar Pigalle, em Copacabana. O influente contraventor sentou-se à mesa, olhou nos olhos do cenógrafo e recitou uma sequência numérica: "1330248". Era o número do documento de identidade de Pamplona.

— Para você ver como estou bem informado a seu respeito — afirmou Natal, antes de estender a oferta: — Coloco um carro zero quilômetro na porta da sua casa amanhã cedo se você aceitar fazer o carnaval da Portela.

Pamplona recusou a proposta na hora, reafirmou sua fidelidade ao Salgueiro e fez questão de pagar a conta do bar.

Essa retidão moral garantiu-lhe o respeito irrestrito da comunidade do Morro do Salgueiro, estabelecendo uma ponte entre a intelectualidade acadêmica e os sambistas da favela. Exemplo dessa simbiose foi sua parceria com Luiz Fernando Ribeiro do Carmo, o Laíla, jovem diretor de harmonia nascido na comunidade. Na construção de Bahia de todos os deuses, em 1969, Joãosinho Trinta projetou uma monumental escultura da orixá Iemanjá para o carro abre-alas. Terminada a apuração vitoriosa, Laíla declarou que a imagem não seria desmontada: pertencendo à Rainha do Mar, deveria ser entregue às águas. No Réveillon daquele ano, um cortejo de salgueirenses levou a imagem até a praia de Copacabana e a lançou ao oceano.

Pamplona permaneceu como carnavalesco do Salgueiro até 1978. Descontente com manobras nos bastidores da apuração daquele ano, quando a escola obteve a sexta colocação com Do Yorubá à luz, a aurora dos deuses, prometeu à esposa que não voltaria a assinar desfiles. Cumpriu a promessa integralmente.

Sua contribuição para a estética da cidade, contudo, não se restringiu aos barracões. Entre as décadas de 1950 e 1970, Pamplona assinou os projetos de decoração de rua do carnaval do Rio de Janeiro, transformando vias como a Avenida Rio Branco e a Avenida Presidente Vargas em galerias de arte a céu aberto, além de conceber a ornamentação de bailes icônicos nos hotéis Copacabana Palace, Glória e Nacional. Nos anos 1970, contratado pela Embratur, projetou os pavilhões do turismo brasileiro em congressos internacionais em Acapulco e Montreal.

Fora das disputas de barracão, Pamplona tornou-se comentarista de rádio e televisão, integrando a equipe de jurados do prêmio Estandarte de Ouro. Em 1982, ofereceu a carnavalesca Rosa Magalhães, então no Império Serrano, com o enredo Onze, Candelária e Sapecaí, uma crítica contundente ao gigantismo e à comercialização da festa. Adaptado para Bumbum, paticumbum, prugurundum, o tema proporcionou à verde e branco da Serrinha o campeonato daquele ano.

Sua entrada na comunicação de massa deu-se ainda nos anos 1970, na TVE do Rio de Janeiro (Canal 2), onde produziu a novela educativa João da Silva, laureada com o Prêmio Japão de radiodifusão. Em 1980, diante do anúncio da TV Globo de que exibiria apenas os desfiles das grandes escolas, Pamplona articulou na TVE uma cobertura alternativa: oitenta horas ininterruptas de transmissão do carnaval brasileiro. A emissora pública exibiu os desfiles dos grupos de acesso, abriu espaço para o carnaval de rua, blocos de empolgação, ranchos e transmissões ao vivo de São Paulo, Porto Alegre e Niterói. A maratona se repetiria em 1981 (81 horas) e 1982 (82 horas), reunindo um time de analistas composto por Albino Pinheiro, Sérgio Cabral, José Carlos Rego, Luiz Lobo, Mister Eco e Amaury Monteiro.

Nas décadas de 1980 e 1990, Pamplona consolidou-se como o comentarista mais contundente das transmissões da Rede Manchete, ao lado de Haroldo Costa, Maria Augusta e Paulo Stein. Na cabine, denunciava a aceleração dos andamentos das baterias, a perda de qualidade das melodias dos sambas-enredo, o elitismo nos setores de camarotes e a mercantilização da festa.

O momento de maior dramaticidade ocorreu no desfile de 1989, quando a Beija-Flor de Nilópolis levou à avenida a alegoria do Cristo Mendigo, coberta por uma lona preta devido a uma liminar judicial obtida pela Arquidiocese do Rio. Diante da ameaça de prisão de Joãosinho Trinta caso a imagem fosse desvelada, Pamplona usou o microfone da Rede Manchete para gritar ao vivo:

— Este é um momento glorioso, glorioso, glorioso, gente! Vocês jamais vão ver um espetáculo tão bonito, gente! 

A postura corajosa refletia a trajetória de um intelectual que, durante os anos do regime militar, utilizou a cultura popular como espaço de resistência cênica. Próximo a figuras do jornalismo crítico como a equipe do semanário O Pasquim — Jaguar, Ziraldo, Tarso de Castro e Sérgio Cabral —, Pamplona levou para a avenida enredos que resgatavam a memória de negros e excluídos, contrapondo-se à narrativa ufanista oficial.

Em janeiro de 2013, lançou sua autobiografia na Lapa. Em 29 de setembro do mesmo ano, um dia após completar 87 anos, Fernando Pamplona faleceu em sua residência em Copacabana, em decorrência de um câncer. Seu corpo foi sepultado no Cemitério de São João Batista.

Chega-se agora a 2026, ano em que se comemora o centenário de nascimento de Fernando Pamplona. A efeméride coincide com um anúncio simbólico do Acadêmicos do Salgueiro, que definiu para o carnaval de 2027 o enredo Laroyê Xica da Silva — uma releitura contemporânea do tema que a escola apresentou em 1963 sob a batida do mestre.

Cem anos após o seu nascimento, o legado de Fernando Pamplona permanece impregnado na estrutura do carnaval brasileiro. Cada pesquisa histórica aprofundada para a elaboração de um enredo, cada alegoria projetada com rigor cenográfico e cada espaço de protagonismo ocupado pela memória negra nas avenidas do país descendem diretamente das lições ministradas pelo professor. Como resumiu Carlos Heitor Cony, Pamplona foi o homem acadêmico que compreendeu que sua verdadeira catedral não era feita de pedras antigas, mas sim da energia viva, do suor e da criação do povo brasileiro.

Foto: Daniela Dacorso

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✍️ Thiago Otero Jornalista | Cultura, Carnaval e Entretenimento.

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