Ninguém foi mais intimo da família brasileira do que ele. Não teve um lar brasileiro onde sua voz não tenha ecoado em horário nobre, na hora em que a família se reunia no entorno da mesa para o jantar. Durante 29 anos, William Bonner foi a voz oficial do jornalismo da TV Globo, é claro que a carreira do homem posturado e de olhar cinematográfico não começou na bancada do principal jornal da Vênus Platinada, antes de chegar nela, ele já havia tido uma experiência um tanto quanto traumática, a de informar a morte de Abelardo Barbosa, o “Chacrinha”, em seu primeiro dia de Jornal Hoje; logo após a partida do velho guerreiro, se dedicou a produzir uma edição do Globo Repórter, sobre o inesquecível apresentador. Ele também já havia passado pelo Fantástico, onde a cada domingo dividiu a tela com Valéria Monteiro e Sérgio Chapelin.
E foi no exato dia em que foi convidado para a revista dominical, que Bonner se sentou na cama do hotel onde estava hospedado e pensou ‘agora quero fazer o Jornal Nacional’. E assim, no dia 1º de Abril de 1996 (longe de ser uma mentira), William Bonner faz sua estreia a na bancada do JN, ao lado de Lillian Witte Fibe, dupla que foi mantida até 1998, quando Fátima Bernardes assumiu a cadeira ao lado de Bonner. Em Setembro de 1999, ele assumiu também o posto de editor-chefe do jornal. A bancada nunca mais foi a mesma depois da chegada de Bonner, o olhar penetrante, a voz firme se faziam tão sólidas quanto a própria estrutura que fazia a bancada; foi nela que ele se consagrou como gigante, como o máximo exemplo do que é o telejornalismo brasileiro.
O legado de Bonner atravessou gerações, e quem nasceu na década de 2000, teve a felicidade de o ver em diversos momentos da história do Brasil, como a cobertura da morte do jornalista Tim Lopes. O Jornal Nacional foi ao ar com uma edição especial homenageando o colega de trabalho, encerrada com a leitura de um editorial, e em seguida com os colegas em pé, vestidos de preto em uma salva de aplausos. Bonner se segurou até onde conseguiu, nos bastidores não conseguiu conter o choro.
Outros momentos históricos presenciados por Bonner foram momentos também de alta importância para o país e para o mundo, como o dia da reeleição de Fernando Henrique Cardoso em 1998, quando transmitiu o jornal da frente do Palácio da Alvorada, e também durante a Copa do Mundo de Paris, quando um estúdio foi montado em Paris, especialmente para a cobertura do evento mundial. Bonner também ancorou o Jornal diretamente de Roma, em 2005, durante a cobertura da morte do Papa João Paulo II, nos ataques de traficantes a cidade de São Paulo em 2006, no acidente aéreo da TAM no aeroporto de Congonhas, 2007, nas enchentes de Santa Catarina, 2008, na eleição e reeleição do primeiro presidente negro dos Estados Unidos Barack Obama, 2008 e 2012, no incêndio na boate Kiss, em 2013, e nas enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024.
A partir de Novembro de 2014, Bonner passou a dividir a bancada com Renata Vasconcellos, e ao longo de onze anos, Bonner e Renata fizeram uma dupla implacável, algo raro de se ver. A fala de um, completava a do outro, a sintonia no olhar, a emoção contida em alguns momentos, e a verdade presente em todos. O anúncio da saída da bancada do JN, feito no primeiro dia de setembro de 2025, marca o fim de uma era no telejornalismo brasileiro.
Bonner é um exemplo personificado de um jornalismo comprometido unicamente com a verdade, sem mentiras, sem ilações. Sua voz, poderosa e marcante, foi fundamental para que os brasileiros tivessem a certeza de que a informação certa precisa ser dada da maneira correta. Seu legado é unânime, sua presença é potente, e sua ausência deixará saudades no horário nobre diário. Exemplo de jornalista. No coração de cada admirador, a sua figura será sempre uma inspiração, e nas casas dos milhares de brasileiros que te acompanharam ao longo dos últimos 29 anos, se ouvirá para sempre o seu querido, e muito esperado: Boa noite.
Thiago Otero.