Juliana Paes: A coroação de quem nunca perdeu a Majestade.

 

A noite do último sábado de agosto foi de festa na quadra da Unidos do Viradouro. A escola de Niterói ficou lotada para receber um dos momentos mais aguardados do mundo do samba: a coroação da nova rainha de bateria da escola.

Desde março deste ano, quando foi anunciada a saída de Erika Januza do posto depois de quatro anos, criou-se uma expectativa por quem assumiria o lugar da atriz. Em maio, quando foi anunciada a justa e merecida homenagem ao Mestre Ciça, a ansiedade dos viradourenses e sambistas só aumentou e a pergunta era só uma: quem seria a rainha de bateria no ano em que o mestre é o enredo?

O diretor-executivo da escola, Marcelinho Callil, foi enfático desde o anúncio do enredo ao dizer que caberia única e exclusivamente a Ciça a escolha da nova majestade, e assim foi. Atendendo ao convite feito pelo homem-enredo de 2026, Juliana Paes abriu seu inconfundível, marcante e iluminado sorriso e disse “sim” para o mestre.

No vídeo feito para anunciar o retorno da atriz no Instagram, Ciça pergunta: “Minha rainha, vamos mergulhar nessa jogada?” Juliana, então, chega ao barracão da Viradouro e responde, frente a frente com seu mestre: “Faço qualquer coisa para deixar você feliz”. O vídeo, que conquistou inúmeras visualizações em poucos minutos, traz uma referência ao samba-enredo de 2007, quando a escola levou para a avenida o enredo “A Viradouro Vira o Jogo”, onde Ciça e Juliana protagonizaram um dos momentos mais icônicos do Carnaval carioca: a bateria veio em cima de uma alegoria simbolizando um tabuleiro de xadrez e desceu para o recuo, causando uma verdadeira catarse em plena Marquês de Sapucaí.



Juliana retorna para a escola onde foi rainha entre 2004 e 2008, e durante a festa fez questão de reforçar sua ligação afetiva com o Furacão Vermelho e Branco. A diva não conseguiu conter a emoção, mesmo repetindo algumas vezes no microfone que não queria chorar, foi às lágrimas quando se lembrou do início de sua vida profissional, da sua infância no Barreto e do forte amor que sempre teve pela escola; coroada pelo próprio Ciça, a rainha descreveu seu retorno como um “sonho realizado”.

Perguntada pela imprensa sobre a emoção de retornar, Juliana disse: “Eu amo essa escola, sempre que podia, vinha pra cá, minha família ainda mora aqui. Mas o meu carinho pelo Ciça é diferente: ele é como um pai para mim, me lembra meu próprio pai, por essa coisa de proteção. Temos muitas histórias juntos, e estou muito feliz de voltar justamente em um enredo sobre ele”.
O homenageado pela escola contou que Juliana se surpreendeu com o convite, e que não esperava voltar para a escola. “Ela tomou um susto, ela queria desfilar, mas não sabia que eu ia chamá-la para ser rainha, ela aceitou de cara, quer viver esse momento comigo, que é meu, mas também é dela”.

Apesar da enorme aceitação com o retorno de Juliana, Marcelinho deixou claro que o acordo feito com a atriz vale somente para o Carnaval 2026: “O nosso combinado é só para este ano. A Juliana tem outros projetos e a Viradouro também tem seus caminhos. O importante é viver esse momento intensamente. Depois, a gente vê o que acontece. Juliana é cria desse chão. A vontade do Ciça é a vontade da escola. Estamos felizes com esse reencontro magnífico, nostálgico e, ao mesmo tempo, muito sólido. A escola está em êxtase, não teria uma rainha melhor para desfilar ao lado dele.”

A festa foi linda, a noite foi marcada por emoção e nostalgia. A quadra lotou, como há algum tempo não se lotava, reunindo torcedores, integrantes, imprensa, convidados da rainha, e ainda contou com a apresentação de ginastas brasileiras, medalhistas da ginástica rítmica, que subiram ao palco e contagiaram as 8 mil pessoas que se reuniram na quadra da vermelha e branca de Niterói.

A grande verdade é que a volta de Juliana Paes ao posto de rainha de bateria da Viradouro, mesmo que seja somente por um ano, ou somente uma “despedida”, como a mesma falou, vai na contramão do que hoje é comum no Carnaval, que é o movimento de famosas, celebridades e subcelebridades ocupando lugares de destaque, de musa e de rainha. Ao contrário de muitas mulheres que são completamente avessas à folia e a festejos de manifestações populares, que se aproximam deles buscando visibilidade própria, a atriz, que até hoje é conhecida e chamada nas ruas pelo nome de suas personagens, nunca usou da festa para se autopromover, pois sabe do seu talento e da força do chão que pisa, respeita as suas raízes e reverencia os grandes mestres de seu pavilhão.

Juliana não é uma famosa que chegou no samba para virar “cria”, pelo contrário, é uma cria que se tornou famosa graças ao seu talento e, anos depois de ter conquistado o estrelato, retorna ao seu lugar de origem, seu ninho, sua base. Juliana volta ao posto e traz uma ótima reflexão sobre os postos de destaque nas Escolas de Samba e sobre o oportunismo comercial de algumas celebridades. É óbvio que a Escola de Samba projeta muito mais visibilidade para a celebridade do que o inverso. Aliás, o debate é mais amplo, profundo e merece um artigo somente focado nele, mas é lindo ver a emoção da grande estrela ao voltar para o seu posto. Que ela brilhe, que seja feliz e que se entregue de corpo e alma, como fez nos anos 2000 e como sempre faz com cada uma de suas personagens; que, em fevereiro, a passarela se contagie com a volta da grande estrela e que seja, para a Viradouro e para Juliana, um retorno triunfal.

Foi lindo de ver, presenciar e se emocionar com a volta de uma filha à sua casa. A coroação de alguém que nunca perdeu a Majestade; uma Rainha de fato.

                                                         Thiago Otero.